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Catulo

Minha pesquisa sobre Catulo já vem de tempo. Não sei o porquê, talvez destino ou "co-relação" com um monte de coisas que vem acontecendo em minha vida, um pedaço de jornal trazido pelo meu irmão chegou com a notícia de que o CCBBRJ vai fazer uma homenagem aos cento e cinquenta anos do nascimento de Catulo da Paixão Cearense e vai realizar quatro shows em forma de sarau. Só com gente fera cantando... Vou dar a agenda rapidinho: 28/03 (Ontem ao Luar -Joyce Moreno e Alfredo Del-Penho); 04/04 (Rasga o Coração - Carol Saboya e Lui Coimbra); 11/04 (Talento e Formosura - Leila Pinheiro e Rodrigo Maranhão); e 18/04 (Luar do Sertão - Mariana Baltar e Claudio Nucci). Imperdível. Farei de tudo para estar!

Aproveitando essa "co-incidência" vou postar um texto que escrevi por encomenda só que ainda não foi publicado, justamente sobre Catulo, segue abaixo:


Catulo: o cancioneiro popular


Ontem ao luar/Nós dois em plena solidão/Tu me perguntaste/O que era dor de uma paixão//Nada respondi!/Calmo assim fiquei!/Mas fitando azul do azul do céu/A lua azul eu te mostrei...

Os versos acima são do compositor, poeta e músico Catulo da Paixão Cearense (1863-1946). Foi sua primeira composição, consta que foi cantada pelo próprio numa serenata na República de Estudantes e na mesma noite seu pai lhe quebrou o violão em sua cabeça, já que não o queria envolvido com boêmios. Depois da morte de seu pai, Catulo vai trabalhar na estiva, a noite coloca sua calça listrada e fraque, e livre das represálias do pai, sai pelas ruas cantando suas composições com o violão debaixo do braço. Logo o rapaz maranhense torna-se popular. Catulo cantava modinhas, gênero fixado em Portugal pelo mulato brasileiro Domingos Caldas Barbosa na segunda metade do século XVIII. Caldas Barbosa foi muito famoso da corte de D. Maria I e podemos dizer que foi o primeiro a exportar a música brasileira. A modinha era uma variação da canção portuguesa que no Brasil tomou outra roupagem e através de Caldas Barbosa foi levada a Portugal. Pode-se dizer que a modinha foi desaparecendo e dando lugar ao samba-canção, a “nacionalização definitiva da modinha”, segundo Mário de Andrade. Mas voltando ao Catulo que logo se popularizou pelas ruas e salões cariocas, não tinha beleza, mas era elegante, andava bem vestido e sabia comandar as palavras. Em determinado momento foi convidado para um sarau na casa de um senador do Império e logo tornou-se o centro da festa, fazendo com que a esposa desse mesmo senador o contratasse para professor de seus filhos. Vale ressaltar que Catulo tocava violão e para a época o instrumento era mal visto. Mulherengo, Catulo compõe várias modinhas para suas paixões e por conta de uma não correspondida o faz sair da casa do senador, onde morava, e vai refugiar-se no subúrbio carioca da Piedade. Lá funda uma escola e passa a lecionar com métodos diferenciados mais atraentes e agradáveis. Continua compondo, participando de serestas e recitais.
Catulo é de extrema importância para a música popular brasileira. Seu sucesso a época era estrondoso tanto que o levou a ser o primeiro músico popular a fazer um recital no Instituto Nacional de Música, hoje Escola de Música da UFRJ, a convite de Alberto Nepomuceno, então diretor da escola, onde inclusive, há um busto em homenagem ao cancioneiro. O personagem Ricardo Coração dos Outros do livro Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto foi inspirado no cantor: “Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros, homem célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão...”. Sua fama se espalhou principalmente depois do recital no Instituto de Música e sua casa passou a ser frequentada até pelo compositor Heitor Villa-Lobos. Sua importância se dá por popularizar um gênero restrito a um meio e principalmente por introduzir o violão, instrumento marginal, aos salões nobres da época. A bossa nova deve reverência a Catulo. Sem ele, a expressão “um banquinho e um violão” talvez não existisse. Contraditoriamente, o violão passou a ser o instrumento da classe média (antiga burguesia). O instrumento que antes era marginal, hoje é amplamente difundido e Catulo, de fato, foi importante para a sua popularização.
Catulo morreu pobre, em um barracão, mas em seu velório, estavam políticos, escritores, músicos... Foi reconhecido em vida. Por onde seu caixão passava o comércio fechava as portas, teve uma grande comoção popular. Depois de sua morte algumas homenagens foram feitas nos anos 50: dois discos foram gravados e um dos seus grandes intérpretes foi Vicente Celestino; Em 1994 foi lançado um cd em sua homenagem; Em 2007 foi lançada uma peça “Um boêmio no Céu” dirigida por Amir Haddad sobre sua vida; Em 2009 foi lançado um livro escrito por Haroldo Costa e em 2011 foi lançada uma caixa de cds 100 anos de música popular brasileira pelo Instituto Cravo Albim cujo volume 1 consta “Luar do Sertão”. Além disso, Marisa Monte o tornou ainda mais popular gravando Ao Luar no seu primeiro cd em 1990.
Mesmo assim, Catulo não é mencionado nas várias antologias poéticas brasileiras, pois segundo Antônio Olinto “ser povo é complicado. Catulo era homem do povo. É difícil ser povo”. E ainda ouso a dizer que quem colabora para o seu esquecimento e sua não valorização são os professores de música que o mencionam rapidamente (se é que o fazem) e os estudantes de música que mal sabem de sua importância para a música popular brasileira. Catulo virou nome de rua do bairro do Engenho de Dentro e junto à sina dos subúrbios carioca foi relegado e esquecido. 

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