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Dona Isaltina

Escrever sobre Dona Isaltina é relembrar minha infância. Dona Isaltina era uma quituteira de mão cheia. Tudo o que fazia era de uma qualidade incrível. Sua imagem ainda hoje é nítida para mim. Sem precisar fechar os olhos a vejo adentrando o quintal dos meus avós, estatura baixa, saia até os joelhos, um lenço na cabeça branquinho tal como seus cabelos. Apoiada em sua cintura, uma bacia de alumínio, muito bem areada por sinal, e dentro: pastéis de massa caseira, bolinhos de aipim (com recheio de carne moída e seca), quibes e bolos. Seus salgados eram robustos, cheirosos, bem feitos, deliciosos. Um manjar dos deuses.   Dona Isaltina era o elo da presença de meu avô. Como meu avô morava em outro estado à trabalho, o período em que se encontrava aqui no Rio, era o momento do aparecimento de Dona Isaltina, porque a venda total de seus quitutes era garantida. E era uma festa, tanto para a quituteira como para nós, as crianças. A comida de fato é um elemento agregador. Comer...

Tempo

Era uma vez o mais jovem dos Titãs, Cronos, filho de Urano. Cronos devorava os filhos logo que nasciam. Isso fez com que Réia, sua esposa e irmã, fugisse para Creta a fim de dar à luz Zeus. Já adulto, Zeus, deu a Cronos uma droga fazendo-o vomitar todos os filhos que engolira outrora. Com o auxílio dos irmãos, Zeus, acorrentou Cronos, mutilou-o dando início à segunda geração dos deuses. Cronos personifica o Tempo (Chronos). Tempo, senhor cruel, imperdoável, devora, engendra, destrói suas criações, estanca as fontes da vida, exprime um sentimento de duração que se esgota, extravasa e passa entre a excitação e a satisfação, teme um substituto, um herdeiro. O Tempo teme, e para não temer, ataca e dá fim ao que o ameaça.   Quantas vezes já ouvi e mencionei a palavra tempo. Tudo se desenvolve em meio ao Tempo. “Vamos dar um tempo”; “estou sem tempo”; “não tenho tempo”; “acabou-se o tempo”; “fulano não tem muito tempo de vida”; frases ouvidas com certa frequência. Elas nos dão u...

12

O 12 é o número das divisões espaço temporais. É o produto dos quatro pontos cardeais pelos três planos do mundo. Divide o céu considerado como uma cúpula em 11 setores: os 12 signos do Zodíaco. Ele simboliza o universo no seu curso cíclico espaço-temporal. Número da ação, da vibração sonora que preside a gênese. E simboliza o universo com toda a sua complexidade interna. Doze é sempre e definitivamente, segundo os simbolistas, o número de uma realização, de um ciclo concluído. Particularmente, simpatizo muito com o doze (principalmente o 12 de junho). Dia 12 de junho é o Dia dos Namorados então para todos aqueles que estão enamorados ou que querem enamorar-se reescrevo um trecho do livro Amor, de Maria de Lourdes Borges, para a reflexão: “O amor, na sua forma avassaladora, dissolve tudo o que é fixo. Olhar o outro nos olhos e temer o senhor absoluto nos dá a dimensão mortal de Eros.” Deixo também a poesia de Luis de Camões e a imagem da escultura de Constantin Brancusi...

Tarde em São Clemente

Em virtude de atribulações semanais que possivelmente me impedirão de escrever algo inédito, postarei um texto que escrevi em 2007. Uma boa semana a todos!  Tarde em São Clemente (04/06/2007) Foi assim que eu o conheci: sentada naquele banco olhando a copa das árvores. Era uma tarde amena de primavera em que o sol colore as flores dando a certeza de que foram feitas para serem contempladas. Era mais um dia como outro qualquer cheio de inquietações, quando na calçada, ao preparar-me para fazer sinal para o ônibus, a imponência de dois leões ladeando a entrada de um casarão, fez o meu dedo em riste recuar. Dois leões cinzas, imóveis, petrificados, a espreitar o menor sinal de vacilo.  O sinal fecha, resolvi atravessar. Encontrei o portão aberto como se já esperasse a minha visita.    Escada negra, tapete carmim e o piso de madeira revelavam um corredor longilíneo. Com o caminhar calmo e as crescentes expectativas, comecei meu trajeto. ...

Estrada do Sol

Hoje foi a última conferência dedicada ao teatro brasileiro organizada pela Academia Brasileira de Letras. O tema foi musical e para falar sobre eles foi chamado o jornalista e diretor Flavio Marinho. Para dar suporte sonoro, a atriz Soraya Ravenle e o cantor e compositor Zé Renato. Flavio Marinho fez a trajetória dos musicais brasileiros pontuando-os por décadas e a cada obra referida abria-se espaço para determinada música ora cantada por Soraya Ravenle, ora por Zé Renato. Algumas peças teatrais foram comentadas com uma carga emocional grande assim como a performance dos cantores. o teatro de Revista foi lembrado, o teatro de Arena, as vedetes, os musicais Orfeu da Conceição , Pobre menina rica, Orlando Silva , Dolores Duran , O Santo Inquérito , Gota d’água , A ópera do malandro, entre outros... Fui às lágrimas, obviamente. Esta semana e provavelmente a outra serão carregadas de emoção para mim. Estou na minha atmosfera, na atmosfera do ar. Sentidos estão aguçados e propen...

Pés ruços

Pés ruços , foi um conto que escrevi em 2006. Há dois dias, através de uma conversa sobre pseudo-burgueses, relembrei desse conto e resolvi compartilhar com vocês, eis: PÉS RUÇOS (Luzia Rocha- 14/07/2006) Ela observava uma mulher de cabelos nem tão brancos nem tão pretos sentada no banco laranja de fórmica, de pés ruços, saia de tergal até os joelhos, abraçada à bolsa como a um filho. Olhos inertes, boca flácida num semblante calmo e sereno. Era domingo. O sol à pino e o frenesi das pessoas, ansiosas pelo encontro com o mar, faziam com que aquela figura se destacasse. O vagão sacolejava, os sons dos trilhos cortavam a escuridão e junto, a imagem da bolsa de lona, refletida na janela, rota, próxima ao peito da mulher de pés ruços. Os futuros banhistas, num falatório contínuo, anunciavam que ali havia apenas duas pontas que se cruzavam: a da jovem que a observava e a da mulher de pés ruços. A jovem tentava não fixar o olhar para que sua mente apagasse aquela imag...

A metáfora das metáforas

Era uma vez um jovem líder de um povo ribeirinho que tinha como objetivo conquistar o castelo da jovem rainha déspota. E para isso não media esforços. Carismático por si só, convencia o seu povo de que a melhor maneira de conservar a tradição oral, suas lendas e costumes era travar uma batalha, mesmo que longa, contra a jovem rainha. E o povo confiante no jovem líder, acatava. O jovem líder além de carismático tinha um ótimo senso prático, disciplina, inteligência, e... determinação. Sabia ler, escrever com desenvoltura. Além de seu dialeto, sabia falar outra língua, era viajado, tinha uma boa estatura (estatura de viking). Sabia lutar, uma luta parecida com a capoeira. O jovem líder havia se preparado anos para o confronto com a jovem déspota. A jovem rainha déspota vivia em seu castelo desde o nascimento. Era inteligente, boa oradora, escrevia muito bem, tinha um poder de persuasão, assim como o jovem líder. Em seu castelo, vivia cercada por poetas, filósofos, historiadores, m...